entrevista · processo

Como é fazer design dentro de um gigante

Uma conversa com Julia Kretzer sobre contexto, colaboração e o que realmente define se um projeto de produto vai funcionar.

29 Jun 26

·

10 min de leitura

A Julia descobriu o design pelo caminho menos óbvio: estava no técnico de desenvolvimento de sistemas quando uma disciplina de UX lhe abriu as portas. De lá pra cá, em pouco mais de dois anos de carreira, ela passou de UI júnior a design lead, criou do zero um processo de discovery que virou diferencial de uma software house, e conduziu dezenas de projetos para empresas do Brasil e do mundo, incluindo um projeto para a Valley Eurasia, braço internacional da Valmont, uma das maiores empresas de irrigação do mundo.

É esse projeto que está no centro desta conversa. Um sistema criado para substituir planilhas, BI e Salesforce numa operação que envolvia oito perfis de usuário diferentes, revendedores espalhados pelo mundo e decisões tomadas em múltiplas camadas hierárquicas. O tipo de projeto que não cabe em nenhum processo estruturado.

A gente conversou com ela sobre como entrar num contexto assim sem se perder, o papel que o cliente tem nesse processo, e o que ela diria hoje pra qualquer empreendedor que está prestes a contratar alguém pra construir algo junto.

A Julia descobriu o design pelo caminho menos óbvio: estava no técnico de desenvolvimento de sistemas quando uma disciplina de UX lhe abriu as portas. De lá pra cá, em pouco mais de dois anos de carreira, ela passou de UI júnior a design lead, criou do zero um processo de discovery que virou diferencial de uma software house, e conduziu dezenas de projetos para empresas do Brasil e do mundo, incluindo um projeto para a Valley Eurasia, braço internacional da Valmont, uma das maiores empresas de irrigação do mundo.

É esse projeto que está no centro desta conversa. Um sistema criado para substituir planilhas, BI e Salesforce numa operação que envolvia oito perfis de usuário diferentes, revendedores espalhados pelo mundo e decisões tomadas em múltiplas camadas hierárquicas. O tipo de projeto que não cabe em nenhum processo estruturado.

A gente conversou com ela sobre como entrar num contexto assim sem se perder, o papel que o cliente tem nesse processo, e o que ela diria hoje pra qualquer empreendedor que está prestes a contratar alguém pra construir algo junto.

a entrevista

a entrevista

Você tem pouco mais de dois anos de carreira, mais de 30 projetos e já virou design lead. Como essa progressão acontece tão rápido?

Você tem pouco mais de dois anos de carreira, mais de 30 projetos e já virou design lead. Como essa progressão acontece tão rápido?

Eu entrei pra fazer telinhas, literalmente. A empresa não tinha muita cultura de design, então a expectativa era que eu deixasse frames bonitos no Figma para os desenvolvedores consumirem.

Só que desde o começo não fazia sentido pra mim fazer interface sem entender a estratégia por trás. Então eu fui mostrando que UX é muito mais do que isso, existe um racional que extrapola muito o que você pensa em frames.

Quando eu consegui demonstrar essa competência, as coisas andaram rápido. Sugeri que a empresa iniciasse um processo de discovery estruturado para entender com o cliente a necessidade de cada projeto antes de partir pra solução.

Deu muito certo, os feedbacks foram ótimos, virou um diferencial da empresa. E como era um processo que eu tinha criado, acabei ganhando mais espaço ainda. Em dois anos eu já liderava o departamento.

Eu entrei pra fazer telinhas, literalmente. A empresa não tinha muita cultura de design, então a expectativa era que eu deixasse frames bonitos no Figma para os desenvolvedores consumirem.

Só que desde o começo não fazia sentido pra mim fazer interface sem entender a estratégia por trás. Então eu fui mostrando que UX é muito mais do que isso, existe um racional que extrapola muito o que você pensa em frames.

Quando eu consegui demonstrar essa competência, as coisas andaram rápido. Sugeri que a empresa iniciasse um processo de discovery estruturado para entender com o cliente a necessidade de cada projeto antes de partir pra solução.

Deu muito certo, os feedbacks foram ótimos, virou um diferencial da empresa. E como era um processo que eu tinha criado, acabei ganhando mais espaço ainda. Em dois anos eu já liderava o departamento.

Esse projeto continha múltiplas camadas de uso em um nicho completamente novo, como destrinchar um contexto tão denso assim?

Esse projeto continha múltiplas camadas de uso em um nicho completamente novo, como destrinchar um contexto tão denso assim?

Foi muito complexo, de verdade. Uma empresa gigante, numa área muito específica de máquinas para irrigação, e tudo em inglês. Então no começo eu pedi tudo que tinha de documentação: anotações, rascunhos, qualquer coisa que a cliente já tinha pensado sobre o projeto, além das planilhas que eles usavam para gestão na época. A ideia desse sistema era justamente substituir um conjunto de planilhas, BI e Salesforce num lugar só.

Peguei esse compilado de documentos soltos e passei semanas tentando interpretar. Quais cargos existiam naquela empresa, o que cada um fazia, quem ia acessar a plataforma, o que eles precisavam de verdade.

Enquanto isso, mantinha reuniões semanais com a cliente para tirar dúvidas que eram sempre muitas. Essa parceria foi essencial desde o começo, assim conseguimos definir melhor o que seria desenvolvido.

Foi muito complexo, de verdade. Uma empresa gigante, numa área muito específica de máquinas para irrigação, e tudo em inglês. Então no começo eu pedi tudo que tinha de documentação: anotações, rascunhos, qualquer coisa que a cliente já tinha pensado sobre o projeto, além das planilhas que eles usavam para gestão na época. A ideia desse sistema era justamente substituir um conjunto de planilhas, BI e Salesforce num lugar só.

Peguei esse compilado de documentos soltos e passei semanas tentando interpretar. Quais cargos existiam naquela empresa, o que cada um fazia, quem ia acessar a plataforma, o que eles precisavam de verdade.

Enquanto isso, mantinha reuniões semanais com a cliente para tirar dúvidas que eram sempre muitas. Essa parceria foi essencial desde o começo, assim conseguimos definir melhor o que seria desenvolvido.

Uma coisa pequena que funciona é muito melhor do que quinze mil coisas que funcionam mais ou menos. Você pode usar o mesmo valor para criar coisas diferentes, mas que funcionem de verdade.
Uma coisa pequena que funciona é muito melhor do que quinze mil coisas que funcionam mais ou menos. Você pode usar o mesmo valor para criar coisas diferentes, mas que funcionem de verdade.

Com toda essa bagagem de clientes, o que separa os projetos que deram certo dos que não deram?

Com toda essa bagagem de clientes, o que separa os projetos que deram certo dos que não deram?

Olhando pra todos esses projetos, o que tem em comum entre os que funcionaram e os que não funcionaram é sempre a colaboração do cliente. O quanto ele está disposto a se inteirar do projeto de verdade.

Quando as coisas não fluíam, era muito comum ver o cliente distante, não participando das etapas iniciais, que são justamente as mais importantes. Toda a estruturação de produto é o que vai determinar como ele vai ser no final.

Quando o cliente não disponibiliza o conhecimento que só ele tem, sobre a área dele, sobre a ideia dele, a gente enfrenta muito mais obstáculos. Quando dava muito certo, sempre tinha muita colaboração, muita vontade de transmitir essas informações.

A frequência de contato pode variar. Já tive projetos em que eu falava seis horas por semana com o cliente, e projetos em que falava uma vez a cada duas semanas e tava tudo bem. Isso é personalizável. O que não é negociável é essa colaboração.

Olhando pra todos esses projetos, o que tem em comum entre os que funcionaram e os que não funcionaram é sempre a colaboração do cliente. O quanto ele está disposto a se inteirar do projeto de verdade.

Quando as coisas não fluíam, era muito comum ver o cliente distante, não participando das etapas iniciais, que são justamente as mais importantes. Toda a estruturação de produto é o que vai determinar como ele vai ser no final.

Quando o cliente não disponibiliza o conhecimento que só ele tem, sobre a área dele, sobre a ideia dele, a gente enfrenta muito mais obstáculos. Quando dava muito certo, sempre tinha muita colaboração, muita vontade de transmitir essas informações.

A frequência de contato pode variar. Já tive projetos em que eu falava seis horas por semana com o cliente, e projetos em que falava uma vez a cada duas semanas e tava tudo bem. Isso é personalizável. O que não é negociável é essa colaboração.

Nesse projeto, os testes com os usuários finais aconteceram só no final, quase um ano depois do início. O que isso custou?

Nesse projeto, os testes com os usuários finais aconteceram só no final, quase um ano depois do início. O que isso custou?

A Valmont gastou centenas de milhares de euros nesse projeto. E o único momento em que foi feita uma validação de verdade com quem ia estar usando aquilo foi no final, depois que todo esse dinheiro já tinha sido investido.

O risco que se correu foi enorme. Por exemplo, os usuários das revendedoras muitas vezes precisavam acessar o sistema no celular enquanto estavam em campo, no meio de uma fazenda, conversando com um cliente. Isso significa que algumas funções precisavam funcionar offline. Em nenhum momento isso foi pensado antes, porque a pessoa com quem eu conversava não tinha acesso a essa realidade dos usuários finais.

A Valmont gastou centenas de milhares de euros nesse projeto. E o único momento em que foi feita uma validação de verdade com quem ia estar usando aquilo foi no final, depois que todo esse dinheiro já tinha sido investido.

O risco que se correu foi enorme. Por exemplo, os usuários das revendedoras muitas vezes precisavam acessar o sistema no celular enquanto estavam em campo, no meio de uma fazenda, conversando com um cliente. Isso significa que algumas funções precisavam funcionar offline. Em nenhum momento isso foi pensado antes, porque a pessoa com quem eu conversava não tinha acesso a essa realidade dos usuários finais.

Pesquisa não é custo. É investimento.
Pesquisa não é custo. É investimento.

Você ter contato com pessoas que saibam falar sobre qual é o contexto de uso delas é essencial para gastar com o que realmente importa e não desperdiçar a oportunidade de fazer direito da primeira vez.

Você ter contato com pessoas que saibam falar sobre qual é o contexto de uso delas é essencial para gastar com o que realmente importa e não desperdiçar a oportunidade de fazer direito da primeira vez.

Por que uma empresa do porte da Valmont contrata uma empresa externa para desenvolver algo tão estratégico quanto esse sistema?

Por que uma empresa do porte da Valmont contrata uma empresa externa para desenvolver algo tão estratégico quanto esse sistema?

Custo é uma parte da resposta, claro, mas não é a principal. Para montar um time interno com capacidade de desenvolver uma solução assim, sem ser uma empresa naturalmente de tecnologia, você levaria muito tempo para encontrar as pessoas certas e ainda correria o risco de errar na contratação.  

O que faz a terceirização valer a pena é quando você tem certeza de que a empresa que você está contratando tem capacidade de pegar o que você está passando e transformar numa coisa real.

Quando você tem essa ciência de quem você está confiando, passa a ser mais vantajoso do que montar um time interno que vai servir só para pensar naquele produto.

Custo é uma parte da resposta, claro, mas não é a principal. Para montar um time interno com capacidade de desenvolver uma solução assim, sem ser uma empresa naturalmente de tecnologia, você levaria muito tempo para encontrar as pessoas certas e ainda correria o risco de errar na contratação.  

O que faz a terceirização valer a pena é quando você tem certeza de que a empresa que você está contratando tem capacidade de pegar o que você está passando e transformar numa coisa real.

Quando você tem essa ciência de quem você está confiando, passa a ser mais vantajoso do que montar um time interno que vai servir só para pensar naquele produto.

Você viveu de perto um projeto que atrasou por falta de visibilidade. Se você pudesse mudar uma coisa na forma como esse projeto foi gerenciado, o que seria?

Você viveu de perto um projeto que atrasou por falta de visibilidade. Se você pudesse mudar uma coisa na forma como esse projeto foi gerenciado, o que seria?

Com certeza teria garantido que as tarefas e demandas estivessem organizadas num lugar que todo mundo envolvido pudesse ver. Que cada pessoa soubesse quais eram as suas responsabilidades, e que quem estava gerenciando o projeto tivesse essa visão do começo ao fim. Organização de demandas não seria negociável.

E pensando no cliente, a transparência sobre o que está acontecendo do lado de quem está entregando é igualmente essencial. Saber o que está sendo feito agora, o que vem a seguir e quanto tempo vai demorar traz segurança para todo mundo, tanto pra quem está dentro da empresa prestadora quanto pra quem está contratando. Essa clareza é o que garante que um projeto vai de fato andar.

Com certeza teria garantido que as tarefas e demandas estivessem organizadas num lugar que todo mundo envolvido pudesse ver. Que cada pessoa soubesse quais eram as suas responsabilidades, e que quem estava gerenciando o projeto tivesse essa visão do começo ao fim. Organização de demandas não seria negociável.

E pensando no cliente, a transparência sobre o que está acontecendo do lado de quem está entregando é igualmente essencial. Saber o que está sendo feito agora, o que vem a seguir e quanto tempo vai demorar traz segurança para todo mundo, tanto pra quem está dentro da empresa prestadora quanto pra quem está contratando. Essa clareza é o que garante que um projeto vai de fato andar.

Quando é a hora certa de trazer um designer para um projeto? Na fase de rascunho, quando já tem algo sendo desenvolvido, depois que deu errado?

Quando é a hora certa de trazer um designer para um projeto? Na fase de rascunho, quando já tem algo sendo desenvolvido, depois que deu errado?

Em qualquer momento um designer vai ser útil, de verdade. Na fase de rascunho, ele consegue ajudar a pensar fora da caixa, fazer pesquisa para saber se a ideia faz sentido, entender se o problema que você quer resolver existe de verdade. Quando já tem algo rodando, ele é quem vai olhar e dizer o que não está certo e como poderia ser diferente.

Mas puxando a sardinha para o nosso lado: o começo é onde o designer pode ser mais valioso. Ter certeza de que a ideia sequer faz sentido antes de gastar qualquer recurso.

Porque quando você tem um problema real e validado, é difícil criar uma solução que não faça nenhum sentido. Você passa a ter noção das possibilidades. Um problema de verdade tende a dar certo.

Em qualquer momento um designer vai ser útil, de verdade. Na fase de rascunho, ele consegue ajudar a pensar fora da caixa, fazer pesquisa para saber se a ideia faz sentido, entender se o problema que você quer resolver existe de verdade. Quando já tem algo rodando, ele é quem vai olhar e dizer o que não está certo e como poderia ser diferente.

Mas puxando a sardinha para o nosso lado: o começo é onde o designer pode ser mais valioso. Ter certeza de que a ideia sequer faz sentido antes de gastar qualquer recurso.

Porque quando você tem um problema real e validado, é difícil criar uma solução que não faça nenhum sentido. Você passa a ter noção das possibilidades. Um problema de verdade tende a dar certo.

Se você pudesse voltar e falar com a Julia do passado, entrando como UI júnior, o que você diria pra ela?

Se você pudesse voltar e falar com a Julia do passado, entrando como UI júnior, o que você diria pra ela?

Confiar no processo.

Isso é uma coisa que acontece não só na minha carreira, mas com os clientes que eu já atendi, que vivem um sentimento muito parecido: querer as coisas rápido e perfeitas ao mesmo tempo. E cara, isso não vai ficar perfeito nunca, quem dirá rápido.

As coisas têm uma ordem natural para acontecer. Se você não confiar que está melhorando e evoluindo aos poucos, você se perde. Você quer que a coisa fique pronta rápido, e esse rápido não vai ser suficiente para atender o que você precisa ou almeja.

Vale muito mais ter paciência e confiar no que está acontecendo, especialmente quando tem pessoas competentes do seu lado. Os obstáculos fazem parte. As coisas boas também fazem parte. Mas perfeito não vai ficar, e se for muito rápido, provavelmente não vai ser tão bom quanto poderia ser com um pouco mais de paciência no caminho.

Confiar no processo.

Isso é uma coisa que acontece não só na minha carreira, mas com os clientes que eu já atendi, que vivem um sentimento muito parecido: querer as coisas rápido e perfeitas ao mesmo tempo. E cara, isso não vai ficar perfeito nunca, quem dirá rápido.

As coisas têm uma ordem natural para acontecer. Se você não confiar que está melhorando e evoluindo aos poucos, você se perde. Você quer que a coisa fique pronta rápido, e esse rápido não vai ser suficiente para atender o que você precisa ou almeja.

Vale muito mais ter paciência e confiar no que está acontecendo, especialmente quando tem pessoas competentes do seu lado. Os obstáculos fazem parte. As coisas boas também fazem parte. Mas perfeito não vai ficar, e se for muito rápido, provavelmente não vai ser tão bom quanto poderia ser com um pouco mais de paciência no caminho.

O que fica

O que fica

Design bem feito não aparece. Ele está nas decisões que ninguém questiona, nos caminhos que o usuário percorre sem perceber que percorreu, nas perguntas que foram feitas antes de qualquer tela existir.

O que a Julia descreveu aqui, a escuta, a paciência com o processo, a insistência em entender antes de propor, é além de método, postura. E é exatamente essa postura que separa um produto que resolve de um produto que só existe.

Design bem feito não aparece. Ele está nas decisões que ninguém questiona, nos caminhos que o usuário percorre sem perceber que percorreu, nas perguntas que foram feitas antes de qualquer tela existir.

O que a Julia descreveu aqui, a escuta, a paciência com o processo, a insistência em entender antes de propor, é além de método, postura. E é exatamente essa postura que separa um produto que resolve de um produto que só existe.

Mateus Mativi

Product Designer e co-fundador do eenvo studio. Escreve sobre produto, inovação e o que aprende no caminho

Somos um estúdio de design e estratégia para produtos digitais.

Ajudamos empresas e founders a transformarem ideias e recursos em produtos que funcionam com método, clareza e entrega real.

Florianópolis, SC

eenvo studio

|

todos os direitos reservados

Somos um estúdio de design e estratégia para produtos digitais.

Ajudamos empresas e founders a transformarem ideias e recursos em produtos que funcionam com método, clareza e entrega real.

Florianópolis, SC

eenvo studio

|

todos os direitos reservados

Somos um estúdio de design e estratégia para produtos digitais.

Ajudamos empresas e founders a transformarem ideias e recursos em produtos que funcionam com método, clareza e entrega real.

Florianópolis, SC

eenvo studio

|

todos os direitos reservados