Estratégia · Aporte
Você tem o dinheiro. Agora vem a parte mais difícil.
Uma história sobre R$70 mil perdidos, uma empresa júnior, um contrato sem data: o que aprendi sobre gastar bem quando se está inovando.
24 Jun 26
·
7 min de leitura

Em 2022, eu tinha dezenove anos, estava no segundo semestre de design de produto, e entrei para uma startup de orgânicos como bolsista de iniciação em pesquisa. O projeto se chamava Horta do Cerrado. A proposta era bonita: um marketplace de produtores orgânicos em Brasília, uma espécie de iFood da feira, onde você monta sua cesta, uma pessoa a busca e entrega pra você.
Tudo orgânico, embalagem reciclável, renda extra pro produtor, facilidade pro consumidor. A gente tinha validado o modelo presencialmente no Ceasa, de forma completamente manual: pedidos pelo WhatsApp, separação artesanal, entrega braçal. Tinha funcionado.
O projeto era financiado pela FACTO — a Fundação de Apoio à Ciência do Tocantins — com uma bolsa de R$200 mil, basicamente um caminhão de dinheiro. Desses, aproximadamente R$70 mil foram destinados ao desenvolvimento da plataforma digital.
Quando eu entrei, faltava um ano para o prazo final: um congresso de inovação onde a gente apresentaria o produto para investidores e tentaria captar investimentos, a fim de perpetuar o projeto depois da universidade.
Eu não estava lá quando contrataram a empresa de software. Mas estava lá pra ver tudo desandar.
Em 2022, eu tinha dezenove anos, estava no segundo semestre de design de produto, e entrei para uma startup de orgânicos como bolsista de iniciação em pesquisa. O projeto se chamava Horta do Cerrado. A proposta era bonita: um marketplace de produtores orgânicos em Brasília, uma espécie de iFood da feira, onde você monta sua cesta, uma pessoa a busca e entrega pra você.
Tudo orgânico, embalagem reciclável, renda extra pro produtor, facilidade pro consumidor. A gente tinha validado o modelo presencialmente no Ceasa, de forma completamente manual: pedidos pelo WhatsApp, separação artesanal, entrega braçal. Tinha funcionado.
O projeto era financiado pela FACTO — a Fundação de Apoio à Ciência do Tocantins — com uma bolsa de R$200 mil, basicamente um caminhão de dinheiro. Desses, aproximadamente R$70 mil foram destinados ao desenvolvimento da plataforma digital.
Quando eu entrei, faltava um ano para o prazo final: um congresso de inovação onde a gente apresentaria o produto para investidores e tentaria captar investimentos, a fim de perpetuar o projeto depois da universidade.
Eu não estava lá quando contrataram a empresa de software. Mas estava lá pra ver tudo desandar.
o que aconteceu?
o que aconteceu?
A empresa de desenvolvimento era uma empresa júnior. A coordenadora do nosso projeto era uma defensora ferrenha desse modelo, e fazia sentido, em teoria: apoiar iniciativas universitárias, fomentar o ecossistema e dar oportunidade pra quem está começando.
O problema é que o projeto era grande demais pra eles. Nunca tinham feito nada parecido. E numa empresa júnior, o time pode mudar a cada semestre, e uma boa passagem de bastão, que já é difícil nas melhores empresas, ali era quase impossível.
As entregas começaram a atrasar. Depois de um tempo, pararam. Quando a gente cobrava, aparecia uma tela ou outra, uma desculpa, e então o silêncio por três semanas. Tentei propor um escopo menor: um MVP do MVP, algo que a gente pudesse ao menos mostrar funcionando no congresso. Eles toparam renegociar. Enviamos um novo contrato, com data de entrega clara e entregáveis reduzidos.
Eles removeram a data de entrega antes de enviar.
O fundo de apoio, cansado de ouvir nossas cobranças pela celeridade na assinatura, assinou sem revisar. A gente ficou com um contrato sem prazo, sem saída, e sem dinheiro sobrando pra contratar um advogado.
A empresa de desenvolvimento era uma empresa júnior. A coordenadora do nosso projeto era uma defensora ferrenha desse modelo, e fazia sentido, em teoria: apoiar iniciativas universitárias, fomentar o ecossistema e dar oportunidade pra quem está começando.
O problema é que o projeto era grande demais pra eles. Nunca tinham feito nada parecido. E numa empresa júnior, o time pode mudar a cada semestre, e uma boa passagem de bastão, que já é difícil nas melhores empresas, ali era quase impossível.
As entregas começaram a atrasar. Depois de um tempo, pararam. Quando a gente cobrava, aparecia uma tela ou outra, uma desculpa, e então o silêncio por três semanas. Tentei propor um escopo menor: um MVP do MVP, algo que a gente pudesse ao menos mostrar funcionando no congresso. Eles toparam renegociar. Enviamos um novo contrato, com data de entrega clara e entregáveis reduzidos.
Eles removeram a data de entrega antes de enviar.
O fundo de apoio, cansado de ouvir nossas cobranças pela celeridade na assinatura, assinou sem revisar. A gente ficou com um contrato sem prazo, sem saída, e sem dinheiro sobrando pra contratar um advogado.
No fim do ano, a tal empresa fez uma confra muito bonita. Nós fomos ao congresso sem produto. Eu tinha dezenove anos, um auditório cheio, e nada pra mostrar além de uma ideia que eu sabia que funcionava, mas não conseguia provar.
No fim do ano, a tal empresa fez uma confra muito bonita. Nós fomos ao congresso sem produto. Eu tinha dezenove anos, um auditório cheio, e nada pra mostrar além de uma ideia que eu sabia que funcionava, mas não conseguia provar.
A apresentação foi uma das experiências mais desconfortáveis da minha vida até aquele momento. Não por raiva, essa já havia se diluído nos três meses anteriores, quando descobrimos sobre o contrato. O que ficou foi vergonha e frustração. Frustração porque a gente tinha um produto real, tinha usuário, tinha produtor, tinha modelo. Só não tinha software. E sem software, para aquele programa, não existia próximo passo.
O time debandou depois. Segui trabalhando com produtos digitais. Mas aquela experiência ficou comigo de um jeito que nenhuma aula de gestão de projetos conseguiria replicar.
A apresentação foi uma das experiências mais desconfortáveis da minha vida até aquele momento. Não por raiva, essa já havia se diluído nos três meses anteriores, quando descobrimos sobre o contrato. O que ficou foi vergonha e frustração. Frustração porque a gente tinha um produto real, tinha usuário, tinha produtor, tinha modelo. Só não tinha software. E sem software, para aquele programa, não existia próximo passo.
O time debandou depois. Segui trabalhando com produtos digitais. Mas aquela experiência ficou comigo de um jeito que nenhuma aula de gestão de projetos conseguiria replicar.
por que isso importa para você
Eu conto essa história porque ela não é rara. O que aconteceu com a Horta do Cerrado acontece, em variações, com dezenas de startups que recebem seu primeiro aporte, seja um edital como o Centelha, uma bolsa de programa de inovação, um investidor anjo, ou mesmo uma aceleração.
A diferença entre quem avança e quem trava raramente é a ideia. Grande parte das vezes é o que a pessoa faz com o dinheiro nos primeiros meses.
Eu conto essa história porque ela não é rara. O que aconteceu com a Horta do Cerrado acontece, em variações, com dezenas de startups que recebem seu primeiro aporte, seja um edital como o Centelha, uma bolsa de programa de inovação, um investidor anjo, ou mesmo uma aceleração.
A diferença entre quem avança e quem trava raramente é a ideia. Grande parte das vezes é o que a pessoa faz com o dinheiro nos primeiros meses.
GRAFICOS
GRAFICOS
Se você chegou até aqui, se você tem um aporte em mãos, uma ideia validada ou em validação, e está prestes a contratar alguém para construir a sua solução, você já faz parte de um grupo muito pequeno. A maior parte dos empreendedores de inovação no Brasil não chega nem a essa fase por falta de recursos. Isso significa que desperdiçar esse momento tem um custo enorme, não só financeiro.
Então o que fazer diferente?
Se você chegou até aqui, se você tem um aporte em mãos, uma ideia validada ou em validação, e está prestes a contratar alguém para construir a sua solução, você já faz parte de um grupo muito pequeno. A maior parte dos empreendedores de inovação no Brasil não chega nem a essa fase por falta de recursos. Isso significa que desperdiçar esse momento tem um custo enorme, não só financeiro.
Então o que fazer diferente?
Terceirizar é um risco que precisa ser gerenciado, e não ignorado.
Terceirizar é um risco que precisa ser gerenciado, e não ignorado.
Contratar uma empresa para desenvolver seu produto é uma das decisões mais críticas da fase inicial. E é também uma das mais subestimadas. A maioria dos empreendedores trata isso como uma compra: você paga, eles entregam. Mas não é assim que funciona na prática, especialmente quando você está contratando um produto inédito, num prazo apertado, com orçamento limitado.
Antes de fechar qualquer contrato, vale responder três perguntas com honestidade:
Essa empresa já fez algo parecido com o que você precisa?
Não no setor, mas no nível de complexidade. Um marketplace com lógica de geolocalização, pagamento, gestão de pedidos e múltiplos tipos de usuário é diferente de um site institucional. Se o portfólio deles não tem nada próximo disso, o risco é muito alto.
O contrato protege você ou protege eles?
Data de entrega, entregáveis específicos, cláusula de rescisão, o que acontece se não cumprirem, tudo isso tem que estar escrito. Uma empresa que entende o risco que seu cliente está assumindo deve ter um contrato que nivele o risco de ambas as partes.
Você vai conseguir acompanhar o que está sendo feito?
Não é pra microgerenciar, mas pra ter visibilidade, e previsibilidade. Sprints com entregáveis concretos, demonstrações periódicas, acesso ao que está sendo construído. Se ao pedir visibilidade a resposta for "você vai ver quando estiver pronto", muito cuidado.
Contratar uma empresa para desenvolver seu produto é uma das decisões mais críticas da fase inicial. E é também uma das mais subestimadas. A maioria dos empreendedores trata isso como uma compra: você paga, eles entregam. Mas não é assim que funciona na prática, especialmente quando você está contratando um produto inédito, num prazo apertado, com orçamento limitado.
Antes de fechar qualquer contrato, vale responder três perguntas com honestidade:
Essa empresa já fez algo parecido com o que você precisa?
Não no setor, mas no nível de complexidade. Um marketplace com lógica de geolocalização, pagamento, gestão de pedidos e múltiplos tipos de usuário é diferente de um site institucional. Se o portfólio deles não tem nada próximo disso, o risco é muito alto.
O contrato protege você ou protege eles?
Data de entrega, entregáveis específicos, cláusula de rescisão, o que acontece se não cumprirem, tudo isso tem que estar escrito. Uma empresa que entende o risco que seu cliente está assumindo deve ter um contrato que nivele o risco de ambas as partes.
Você vai conseguir acompanhar o que está sendo feito?
Não é pra microgerenciar, mas pra ter visibilidade, e previsibilidade. Sprints com entregáveis concretos, demonstrações periódicas, acesso ao que está sendo construído. Se ao pedir visibilidade a resposta for "você vai ver quando estiver pronto", muito cuidado.
GRAFICOS
GRAFICOS
Menos escopo, mais controle
Menos escopo, mais controle
Tem uma crença que persiste no ecossistema de startups: que com mais dinheiro você constrói mais coisa, e com mais coisa você tem mais chance de sucesso. Isso é, na maioria dos casos, o caminho mais rápido pra gastar tudo e não ter nada.
Com um aporte inicial, o objetivo não é construir o produto que você sonhou. É construir a menor versão possível que prove que o produto que você sonhou é viável. Escreva isso em uma placa e coloque bem à vista.
Um MVP bem construído, mesmo que pequeno, mesmo que com poucas funcionalidades, permite que você apresente algo real, colete feedback de usuários potenciais, e chegue à próxima conversa com investidores com evidências em mãos. Um produto grande, incompleto, que atrasou seis meses e consumiu todo o orçamento, não permite nada disso.
Na prática: se você tem R$100 mil para desenvolvimento, prefira gastar R$30 mil em três meses, ter algo funcionando, e decidir como gastar o restante com mais informação, do que comprometer os R$100 mil num escopo que você definiu antes de conversar com um único usuário real. Ouça a voz da experiência.
Tem uma crença que persiste no ecossistema de startups: que com mais dinheiro você constrói mais coisa, e com mais coisa você tem mais chance de sucesso. Isso é, na maioria dos casos, o caminho mais rápido pra gastar tudo e não ter nada.
Com um aporte inicial, o objetivo não é construir o produto que você sonhou. É construir a menor versão possível que prove que o produto que você sonhou é viável. Escreva isso em uma placa e coloque bem à vista.
Um MVP bem construído, mesmo que pequeno, mesmo que com poucas funcionalidades, permite que você apresente algo real, colete feedback de usuários potenciais, e chegue à próxima conversa com investidores com evidências em mãos. Um produto grande, incompleto, que atrasou seis meses e consumiu todo o orçamento, não permite nada disso.
Na prática: se você tem R$100 mil para desenvolvimento, prefira gastar R$30 mil em três meses, ter algo funcionando, e decidir como gastar o restante com mais informação, do que comprometer os R$100 mil num escopo que você definiu antes de conversar com um único usuário real. Ouça a voz da experiência.
Ter pouco dinheiro não significa fazer uma coisa pequena e ruim. Significa fazer uma coisa menor e muito bem feita, que você pode expandir à medida que aprende.
Ter pouco dinheiro não significa fazer uma coisa pequena e ruim. Significa fazer uma coisa menor e muito bem feita, que você pode expandir à medida que aprende.
Realismo não é pessimismo
Realismo não é pessimismo
Uma das coisas mais difíceis de fazer quando você acabou de receber um aporte é ser realista sobre o que dá pra construir com ele. Tem uma euforia natural nesse momento, e ela é boa, ela é o seu combustível. Mas ela precisa ser acompanhada de uma pergunta muito fria: o que eu consigo entregar de verdade, no prazo que tenho, com o dinheiro que tenho?
Realismo não mata a visão. Ele protege a visão. Porque se você for realista agora, vai ter produto pra mostrar no final. E com produto em mãos, a visão grande fica muito mais fácil de vender.
A Horta do Cerrado tinha tudo pra funcionar. Produto validado. Mercado real. Uma comunidade de produtores e consumidores de orgânicos no planalto central que é expressiva, que tem movimento. Eu acredito nisso até hoje. O que faltou não foi ideia, foi execução.
Uma das coisas mais difíceis de fazer quando você acabou de receber um aporte é ser realista sobre o que dá pra construir com ele. Tem uma euforia natural nesse momento, e ela é boa, ela é o seu combustível. Mas ela precisa ser acompanhada de uma pergunta muito fria: o que eu consigo entregar de verdade, no prazo que tenho, com o dinheiro que tenho?
Realismo não mata a visão. Ele protege a visão. Porque se você for realista agora, vai ter produto pra mostrar no final. E com produto em mãos, a visão grande fica muito mais fácil de vender.
A Horta do Cerrado tinha tudo pra funcionar. Produto validado. Mercado real. Uma comunidade de produtores e consumidores de orgânicos no planalto central que é expressiva, que tem movimento. Eu acredito nisso até hoje. O que faltou não foi ideia, foi execução.
Na hora de escolher quem vai construir com você, escolha bem.
Na hora de escolher quem vai construir com você, escolha bem.
Não tem jeito de encerrar esse texto fazendo uma lista de soluções perfeitas. Cada projeto é diferente, e cada contratação tem suas variáveis. Mas tem uma coisa que eu sei com certeza: a escolha de com quem você vai construir sua solução é tão importante quanto a própria ideia.
Isso vale para qualquer fornecedor: estúdio de design, agência, software house, freelancer, empresa júnior. O que você precisa avaliar é histórico concreto, transparência no processo, e disposição pra trabalhar de forma incremental. Quem propõe entregar tudo de uma vez, depois de meses de silêncio, sem mostrar o caminho, não é parceiro. É risco.
Escolha alguém que mostre o trabalho enquanto faz. Que quebre o escopo em pedaços que você consiga verificar. Que trate o seu dinheiro com o mesmo cuidado que trataria o deles.
Independente de quem for.
Não tem jeito de encerrar esse texto fazendo uma lista de soluções perfeitas. Cada projeto é diferente, e cada contratação tem suas variáveis. Mas tem uma coisa que eu sei com certeza: a escolha de com quem você vai construir sua solução é tão importante quanto a própria ideia.
Isso vale para qualquer fornecedor: estúdio de design, agência, software house, freelancer, empresa júnior. O que você precisa avaliar é histórico concreto, transparência no processo, e disposição pra trabalhar de forma incremental. Quem propõe entregar tudo de uma vez, depois de meses de silêncio, sem mostrar o caminho, não é parceiro. É risco.
Escolha alguém que mostre o trabalho enquanto faz. Que quebre o escopo em pedaços que você consiga verificar. Que trate o seu dinheiro com o mesmo cuidado que trataria o deles.
Independente de quem for.